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Habitação Intergeracional: a Primeira e a Última Casa

NOVEMBRO 2025

Por Gustavo Ferreira


 

Ilustração de Daniil Voznesenskiy, 2025  

  


                       O meu particular interesse pela intergeracionalidade na habitação surge da constatação, por observação própria, das dificuldades experienciadas pela população envelhecida do nosso país que vive sozinha. Simultaneamente, é alimentado pela minha certeza de não conseguir comportar os custos atuais de uma renda (situação a que apenas escapo atualmente por ter acesso ao alojamento estudantil, do qual muitos estudantes estarão, desde logo, privados). Estas duas problemáticas serão, ao longo do texto, abordadas enquanto circunstâncias, mais do que opostas, complementares. Da tensão entre o ser-se obrigado a viver só e a dificuldade em adquirir habitação própria, deverá nascer uma arquitetura capaz de, pelo encontro destas duas polaridades, satisfazer carências até então negligenciadas.

                Este artigo, dada a minha instrução ainda embrionária na matéria da Arquitetura, terá as suas limitações e haverá pois uma probabilidade acrescida de que sucedam erros na minha leitura da realidade. Ainda assim, insisto na relevância do estudo da habitação intergeracional enquanto contributo importante no combate a problemas reais cujos casos se multiplicam no nosso país. 

  (Alguns dos) Problemas
O Exílio dos Idosos

               Segundo dados da PORDATA1, no ano de 2024 existiam cerca de 1140 mil adultos a viver sozinhos em Portugal.  A Cruz Vermelha Portuguesa2 adianta que, destes, mais de 500 mil seriam idosos. A organização avisa ainda que este número tende a aumentar cerca de 2% a cada ano.
           Um artigo publicado pela Rádio Renascença3 denuncia uma das causas primárias do persistente aumento destes casos:

Portugal é dos países da Europa onde as pessoas idosas são mais abandonadas, com menos profissionais a elas dedicados e menos dinheiro alocado [...] mesmo [em] países desenvolvidos da Europa [...] entre 56.6 e 90.4% das pessoas com mais de 65 anos não tem acesso a serviços continuados de qualidade por falta de trabalhadores nessa área. Os 90.4, o número mais alto, referem-se a Portugal.
            A meu ver, e por comparação ao panorama de outros países, a dimensão sobreabundante deste fenómeno e o constante ritmo a que os seus casos se multiplicam devem ser entendidos como sintomas da ausência de respostas suficientemente eficazes às necessidades dos idosos que vivem em Portugal.
           A chegada a esta faixa etária é vincadamente marcada pela reforma. Num artigo publicado pela Stannah4, pode ler-se sobre o impacto emocional decorrente desse processo:

Os primeiros sinais de solidão e isolamento que um idoso vivencia acontecem depois da entrada na reforma. [...] há uma mudança de padrão de vida que pode ser bastante abrupta  [...] Nesta altura, surge uma sensação de perda de utilidade social e um afastamento de alguns contactos sociais que se revelaram fundamentais para uma vida social mais ativa.
            À solidão que o idoso experiencia há problemas de saúde associados, entre os quais a hipertensão, uma maior propensão a infeções e problemas psicológicos como a ansiedade e a depressão. O mesmo artigo menciona também a existência de estudos recentes que equiparam o impacto da solidão na saúde ao do stress crónico. Este efeito consequente do psicológico sobre o físico coloca em relevo a natureza social do ser humano, cujo bem-estar é dependente da interação com o outro.  
            Ademais, a degradação da saúde mental do idoso pode, em alguns casos, conduzir a um desinteresse pelas suas necessidades mais essenciais. Daniel Kaplan, autor do artigo “Autonegligência em idosos”5, define este fenómeno:

A autonegligência é a incapacidade ou indisposição dos idosos em atender às suas necessidades básicas. Isso pode incluir ignorar a higiene pessoal, não pagar contas, não manter a limpeza da casa, não obter ou preparar alimentos (causando desnutrição), não procurar cuidados médicos para sintomas potencialmente sérios, não comprar os medicamentos receitados, não tomar medicamentos (com ou sem receita médica) corretamente e não fazer consultas de acompanhamento.
           Esta definição convoca oportunamente os termos incapacidade e indisposição, que suscitam diferentes realidades que poderão vir a condicionar a população mais envelhecida. As debilidades que o idoso começa a experienciar e que se vão intensificando com o avanço da idade - a perda de mobilidade, o declínio das capacidades visuais e auditivas e o enfraquecimento das faculdades mentais, entre outras - podem torná-lo incapaz de levar a cabo atividades indispensáveis à manutenção do seu bem-estar. Por outro lado, mesmo na ausência deste tipo de condicionantes, o idoso pode, por motivos exclusivamente psicológicos, desenvolver uma rotina em que continuadamente se encontra indisposto a cuidar de si mesmo.



A falta de Liberdade dos Jovens
           Leonor Santos escreve, num artigo publicado em 2023 na secção de notícias do site Idealista6, sobre a idade tardia em que os jovens portugueses têm vindo a conseguir, finalmente, adquirir casa própria:
       
Os números do Eurostat não deixam margem para dúvidas: Portugal é o país da União Europeia (UE) em que os jovens saem mais tarde de casa dos pais - 33,6 anos, em média.
           A autora do texto explica que esta realidade não resulta de uma vontade dos jovens de permanecer na mesma casa, mas de condicionantes que atualmente lhes impossibilitam a saída. Santos salienta que a “raiz do problema é, segundo os especialistas, multifatorial”, e que estes apontam a “falta de oferta, aliada ao fosso entre os preços das casas e salários” como um dos principais obstáculos no acesso à primeira habitação. Citando Romana Xerez, professora no ISCSP-ULisboa e investigadora, é mencionado neste artigo que o problema não consiste apenas no “facto de não se conseguir comprar casa, mas aquilo que ela representa: capacidade de constituir família, bem-estar, alcance de autonomia”. A meu ver, o conceito-chave neste excerto é a autonomia, termo que descreve, de forma abrangente, o conjunto de oportunidades que o acesso à habitação própria permite. 
            A residência do agregado familiar é o epicentro de crenças, costumes e dinâmicas económicas que condicionaram até então a vida do jovem. Na aquisição de casa própria consuma-se a primeira grande aproximação do indivíduo à sua autodeterminação. Desde logo, deixa de ser inescapável a convivência com membros do agregado que pudessem atuar negativamente sobre o seu psicológico, comprometer a sua privacidade, ou impedir a concretização da sua liberdade. A psicóloga Patrícia Câmara, em declarações prestadas ao NiT7, afirma que se verifica, nos casos dos jovens portugueses que não conseguem sair de casa dos pais, “uma “infantilização” dos jovens, em que a permanência no espaço significa que as mesmas regras e expectativas da infância continuam a ser incutidas.” A profissional adianta ainda que a “separação física e consequente afastamento da dinâmica familiar de origem fazem parte do processo de autonomia e crescimento”, denunciando o impacto direto que a situação atual tem no normal desenvolvimento pessoal do jovem.
            Outra das grandes vantagens associadas ao acesso à habitação própria é a viabilização de oportunidades de trabalho ou de estudos que de outra forma dependeriam de longas viagens, em muitos dos casos impraticáveis pela excessiva distância ou pela falta de meios acessíveis ao jovem para a percorrer. A situação tem-se revelado particularmente alarmante no que diz respeito aos estudantes recém-colocados no ensino superior, como relatava, já em 2022, o Diário de Notícias8:

Colocados 49 806 alunos na primeira fase do Ensino Superior, 11,6 % não se matricularam, percentagem superior a anos anteriores, sublinham as associações de estudantes. Argumentam que é, também, o reflexo das dificuldades que os deslocados têm em encontrar casa. Há menos quartos, mais caros e são cada vez mais os jovens que mantêm estes alugueres quando acabam o curso e começam a trabalhar. Não ganham para uma casa.

            A escassa oferta de habitação acessível no mercado livre, em conjunto com as insuficientes vagas no alojamento estudantil, são fatores que desencorajam aqueles que procuram iniciar estudos fora da sua área de residência9. Numa notícia avançada pela SUPERCASA10 em fevereiro do presente ano, o desafio enfrentado pelos jovens no acesso à habitação faz-se sentir com mais intensidade no Porto e em Lisboa - cidades cujas universidades são as mais procuradas no país - onde o “custo médio da habitação, seja para compra ou arrendamento, é considerado um entrave por mais de 80% dos jovens que procuram uma solução de alojamento”. 
           No entanto, a escassez na oferta de habitação não aflige apenas os que não chegaram a candidatar-se ao ensino superior, ou os que, tendo sido colocados, tiveram de optar por não concretizar a matrícula. Uma notícia publicada pelo Expresso11 divulga os dados apurados num estudo da Federação Académica de Lisboa em que, dos 1131 jovens estudantes inquiridos, cerca de 1 em cada 4 afirmou já ter ponderado “desistir do seu percurso académico devido aos custos associados ao alojamento”.



A Proposta Intergeracional
                      Como Inês Guilherme o coloca na sua dissertação sobre a habitação intergeracional12, a pertinência do debate sobre este tema assenta no reconhecimento que a arquitetura tem “a responsabilidade e a virtude [...] de criar espaços capazes de responder às exigências do Homem e do Território”.  Assim sendo, e não descurando os demais benefícios decorrentes do encontro entre indivíduos de diferentes gerações, o modelo intergeracional de habitação, quando materializado de acordo com os princípios da inclusividade e acessibilidade para todos, configura uma resposta potencialmente adequada aos problemas encontrados pelos idosos que vivem sozinhos; bem como aos constrangimentos sentidos pelos jovens que se descobrem incapazes de aceder à sua primeira habitação.
            O modelo intergeracional pressupõe, desde logo, a ideia do coabitar. Embora semelhante ao conceito universal de cohousing, distingue-se pela atenção particular à interação entre as diferentes gerações que virão a habitar o mesmo edifício ou complexo habitacional, prezando que esse convívio lhes será de algum modo benéfico:

O termo ‘Intergeracional’, enquanto adjetivo, define a interação e, consequentemente, o intercâmbio mútuo entre diferentes gerações. Enfatizamos que, enquanto o prefixo ‘multi’ só exprime a ideia de pluralidade, o prefixo ‘inter’ implica uma relação de apoio recíproco e intencional.
           Com esse fim, a criação de espaços de encontro assume uma posição prioritária na estratégia de projeto. No entanto, há uma importante particularidade no modo como essa dinâmica acontece: Inês Guilherme enfatiza que “estes critérios”- referindo-se a uma lista desenvolvida pela associação Generationenwohnen Bern Solothurn13 em que são identificados os princípios que caracterizam o modelo intergeracional de habitação - “não podem ser perceptíveis por quem os habita como obrigatórios, mas sim, permitir ou criar oportunidades para que os encontros entre gerações aconteçam de forma espontânea”. No edifício de habitação intergeracional, o encontro e a partilha acontecem fora do espaço privado de cada residente (i. e. o apartamento individual, ou, noutros casos, o apartamento do agregado familiar ou não-familiar), pelo que a privacidade e autonomia de cada indivíduo são salvaguardadas. A vida em comunidade dá-se nos espaços de utilização coletiva, como os acessos aos apartamentos, os espaços de lazer exteriores ou os serviços existentes no edifício. Através deste equilíbrio entre a preservação do espaço individual e a valorização dos espaços de utilização coletiva, a habitação intergeracional oferece a oportunidade de habitação própria, mas sem isolar.
            Nisto, o modelo intergeracional difere de experiências prévias de habitação coletiva, como o caso da Kommunalka soviética, em que, apesar de existir o contacto entre diferentes gerações, o espaço privado era, na prática, inexistente, e a partilha - do espaço, dos equipamentos e dos pertences - era inevitável. No entanto, e como explicado por Olivia Hiskett no seu artigo “Kommunalka: The Thin Wall Between the Public and the Private in Soviet Collective Housing”14, existe a possibilidade de que o entendimento ocidental da vida na Kommunalka seja influenciado por uma “aversão cultural à sua falta de privacidade”, o que pode levar a uma desconsideração dos “elementos positivos da coletividade” (trad. autor). Neste sentido, a habitação intergeracional vem trazer, à civilização do ocidente, o contacto com um modo de habitar em que o outro está presente, em toda a sua diversidade etária, étnica, cultural, religiosa, mas preservando a privacidade que tanto valorizamos.
            Contudo, é importante clarificar que o bom funcionamento da habitação intergeracional não depende exclusivamente das características do projeto - é necessário um certo grau de proatividade da parte dos residentes ou, eventualmente, de alguma entidade externa que participe na organização da comunidade residente.  À arquitetura, compete garantir que princípios como o da acessibilidade (nos vários sentidos da palavra), da flexibilidade e da inclusividade são seguidos e que o edifício resultante é capaz de preservar a privacidade e promover o encontro nos espaços de uso comum, enquanto suporta e potencia uma vida ativa em comunidade.

Aproximadamente metade dos projetos habitacionais organiza-se de forma autogerida, enquanto os outros, geralmente projetos maiores, terceirizam as tarefas de administração para uma entidade externa (embora também haja exceções). A maioria dos projetos com administração externa também emprega um profissional especializado em assuntos sociais para acompanhar e mediar processos de comunicação,promovendo a convivência e as relações entre gerações nas comunidades.12
           Na sua tese12, Inês Guilherme constata que o sucesso na manutenção das dinâmicas próprias da habitação intergeracional varia drasticamente entre os casos de estudo que selecionou. No que toca à habitação intergeracional autogerida, verifica “algumas insuficiências com o avançar da idade dos seus habitantes, sobretudo quando existe uma grande proporção de pessoas envelhecidas”. Identifica, também, a escala do projeto como um fator que “influencia (inevitavelmente) a gestão dos mesmos”; escrevendo, sobre o projeto Solinsieme, na Suíça:
           
Por ser valorizado o compromisso e a partilha, os 20 membros que, atualmente, vivem nesta obra, participam “regularmente em reuniões formais e informais” e decidem, em conjunto, as regras, tarefas e programas. 
            Ao passo que, sobre o projeto Kanzlei-Seen, também na Suíça, dá a conhecer uma realidade muito diferente:

[...] com o passar dos anos, talvez também por falta de conhecimento e compromisso, começou a apresentar indícios fortes de um desequilíbrio entre os deveres e direitos dos respetivos moradores. Além disso, o próprio presidente da cooperativa Gesewo que gere esta obra, defende que a combinação de pessoas mais velhas, sem apoio, ainda não funciona e tende para o desequilíbrio das responsabilidades de cada pessoa.                       Concluindo, a habitação intergeracional estabelece uma ponte entre o modo de vida corrente, caracterizado pelo individualismo, e as possíveis vantagens da partilha de certos espaços e serviços entre uma comunidade. Se o seu funcionamento for devidamente gerido, pode revelar-se uma ferramenta importante no combate ao isolamento social dos idosos e à dificuldade dos jovens no acesso à habitação própria, sem implicar uma mudança radical em relação ao modo de vida a que estamos já habituados em Portugal.


A habitação intergeracional e os idosos COMPANHIA, ASSISTÊNCIA, AUTONOMIA E ATIVIDADE            
                   Ao reunir no mesmo edifício habitacional pessoas sem quaisquer vínculos familiares, a arquitetura intergeracional participa na desconstrução da noção de que a partilha da vida doméstica apenas pode acontecer dentro desse núcleo, num espaço doméstico que se resume à moradia ou apartamento que é sua propriedade. Este processo não é novo, mas no nosso país é ainda a norma que o lugar a que chamamos casa seja sinónimo do lugar que habitamos com a nossa família. Ao acolher esta forma alternativa de viver, o idoso deixa de estar tão vulnerável à solidão que poderá decorrer do abandono por parte dos seus familiares, da viuvez, ou da simples saída dos filhos de sua casa quando estes atingem a idade adulta. Em vez de se deparar com o habitual dilema binário que assombra as situações acima descritas - a escolha entre ficar em casa, isolado (ou, no caso dos mais incapacitados, acompanhados de algum cuidador profissional), e procurar companhia em instituições como os lares15 em que as vagas são limitadas e a permanência acarreta um custo monetário elevado -, surge uma solução que combina a independência da habitação própria com o sentido de comunidade potenciado pela partilha do espaço doméstico. Ao viver na sua própria unidade habitacional, o idoso tem a oportunidade de manter-se autónomo e de gozar da sua privacidade, à semelhança da experiência que teria em sua casa, mas sabendo que, a qualquer momento, pode sair do seu espaço privado para rapidamente encontrar companhia nos espaços de utilização coletiva do edifício que habita. 
            Num pequeno filme realizado para mostra no Open House Worldwide Festival 2022 16, um dos residentes do edifício de habitação intergeracional Vindmøllebakken17 afirma acreditar que “comer e beber em conjunto é uma das melhores maneiras de prevenir a solidão e o conflito”. A nutricionista Sueli Moreira, no seu artigo “Alimentação e comensalidade: aspectos históricos e antropológicos”18, explica este fenómeno:

A partilha de alimentos, também denominada comensalidade, é prática característica do Homo sapiens sapiens, desde os tempos de caça e coleta [...] Comer é realizado pelo indivíduo em seu interesse mais pessoal; comer acompanhado, porém, coloca necessariamente o indivíduo diante do grupo, usando-se o ato de comer como veículo para relacionamentos sociais: a satisfação da mais individual das necessidades torna-se um meio de criar uma comunidade. Neste mesmo raciocínio, a origem da palavra companhia deriva da palavra latina companion [que] significa: "uma pessoa com quem partilhamos o pão". Partir o pão e partilhá-lo com amigos significa a própria amizade, e também confiança, prazer e gratidão pela partilha.
           É também neste sentido que, no projeto Karthago19, o “coração da casa é a sala de jantar do rés-do-chão, onde os residentes, membros da cooperativa e amigos comem, festejam e discutem”. A habitação intergeracional, ao valorizar os espaços de estar coletivos, é potenciadora da refeição como momento de convívio e partilha, seja por marcação de almoços ou jantares periódicos, ou pelo encontro espontâneo dos residentes num espaço cujo uso lhes é comum. Uma particularidade do Karthago é o seu serviço de “cozinha servida profissionalmente de segunda a sexta-feira”20, o que pode ser um sistema valioso para os idosos cujas capacidades físicas ou mentais já não lhes permitam assegurar a si mesmos uma alimentação adequada.
            A oferta de cuidados continuados ao idoso disponibilizada nos lares - um dos aspetos mais apelativos desta solução de alojamento - é uma realidade concretizável também na habitação intergeracional. Este tipo de serviço é contemplado em alguns projetos já em funcionamento, como é o caso da Generationenhaus Papillon, localizada na Suíça21, em que parte da oferta de apartamentos dispõe de cuidados continuados para os mais desabilitados, tanto para estadias a curto como a longo-prazo; ou das residências da Judson Senior Living22, nos EUA, em que os residentes têm acesso a assistência 24 horas por dia, seja para banhos ou cuidados médicos, entre outros serviços.
           Esta alternativa pode servir, além do idoso, o resto da população. Na mesma lógica em que a necessidade de espaço aumenta em função do acréscimo de elementos ao agregado familiar (i.e. o nascimento de filhos), o inverso também se verifica à medida que o mesmo volta a decrescer em número (i.e. quando os filhos adquirem, já adultos, casa própria). Assim, uma habitação que, por ter uma área extensa, tenha sido adequada para servir um agregado numeroso, encontra-se maioritariamente desocupada durante as fases mais tardias da vida do(s)/da(s) proprietário(s)/proprietária(s). O idoso, ao mudar-se para um espaço de dimensão mais proporcional às suas necessidades23, está a libertar para o mercado uma habitação que poderá voltar a servir um novo agregado que necessite de mais espaço.
            Uma potencial desvantagem da assistência constante aos idosos é a tendência para, naqueles casos em que a dependência não é total, haver uma aceleração na perda da mobilidade que ainda têm.  Isto também pode ser tido em conta na habitação intergeracional. A própria Judson Senior Living22 disponibiliza, além dos cuidados continuados já referidos, programas que apoiam a manutenção da atividade física, aulas de yoga e hidroginástica, e serviços de fisioterapia. Porém, o incentivo ao movimento não tem de estar exclusivamente dependente de iniciativas das entidades detentoras do edifício, ou de terceiros por estas contratados. A própria disposição dos espaços exteriores pode propiciar atividades como caminhadas, jogging ou outros exercícios. No projeto Marmalade Lane24, “os carros são mantidos na periferia e é valorizado o percurso pedonal e de bicicleta”12. Os residentes dispõem de um jardim de uso coletivo que, pela escala reduzida e pela abundância da vegetação , é um lugar apelativo ao passeio; e de uma horta comunitária, cujo aproveitamento, além de exigir um certo esforço físico, envolve os residentes na produção dos seus próprios alimentos. 
           A par da promoção da atividade física, deve existir também a preocupação de manter a mente do idoso estimulada. Isto também se manifesta na oferta de experiências que a Judson Senior Living disponibiliza aos seus residentes, que têm acesso a instalações como bibliotecas e ateliers para produção artística, e a atividades no exterior como visitas organizadas a lojas locais, museus e destinos culturais. Os residentes podem também formar grupos com base nos seus interesses, como clubes de leitura e de pintura, ou organizar workshops e palestras. Através de uma parceria com o Cleveland Institute of Music e o Ursuline College, estudantes de arte-terapia vivem, sem qualquer custo monetário, nas residências da Judson Senior Living, em troca de tocarem periodicamente concertos musicais e da dinamização de programas artísticos. A colaboração com outras instituições, como escolas e infantários, permite aos residentes o contacto com as gerações mais novas através de programas de voluntariado, em que visitam as escolas e participam ativamente no crescimento dos mais jovens.
            O Centro Social e Polivalente do Bairro Padre Cruz25, em Lisboa, “acolhe diariamente cerca de 140 utilizadores, dos quais 34 residem em unidades de habitação assistida”. O edifício contém uma dessas unidades, a Residência Assistida do Bairro Padre Cruz, que aloja “pessoas autónomas ou semiautónomas com capacidade para gerir as suas vidas” e “promove diariamente a autonomia dos residentes [...] com o objetivo de retardar a institucionalização em lar”26. Neste centro, “são dinamizadas diariamente atividades conjuntas entre crianças, jovens e seniores, como oficinas de expressão artística, sessões de psicomotricidade, fisioterapia, meditação, música comunitária, jogos lúdicos”, entre outras. Os idosos podem ainda participar em “iniciativas intergeracionais [...] como o acompanhamento de crianças a bibliotecas [...] ou o desenvolvimento de atividades conjuntas em centros de infância próximos”25. Através das atividades organizadas pelo Centro, a dinâmica intergeracional desempenha um papel essencial na ocupação dos idosos que residem nesta unidade de habitação assistida, mesmo que a habitação, em si, não aloje várias gerações. Assim, o trabalho realizado pela Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, através destes projetos, é um exemplo positivo da integração da intergeracionalidade na habitação coletiva em Portugal.            A manutenção de uma mente totalmente saudável não depende exclusivamente de fatores que possam ser controlados. Isto pode fazer com que, por mais cuidados que lhe sejam prestados, não seja possível evitar, num indivíduo de qualquer idade, o desenvolvimento de complicações mentais que condicionam a sua percepção da realidade. A configuração do espaço pode ser um contributo importante para que este consiga manter uma vida autónoma, reduzindo o impacto, no seu quotidiano, de alguns sintomas associados a estas condicionantes, entre os quais se destaca a desorientação. Este é um princípio determinante no projeto Sheltered Housing and Day Care Centre 27, localizado na Bélgica:
O projeto responde de forma criativa aos estudos atuais sobre demência precoce, incorporando também novas ideias espaciais, como quartos associados. Para contrapor os desafios enfrentados pelas pessoas com demência, como desorientação temporal, espacial e de identidade causada pela perda de memória, reforça-se a importância das relações existentes com objetos, rotinas e espaços. A criação de “pequenos mundos” organizados de forma pessoal auxilia na criação de uma ordem dentro de um espaço íntimo e seguro. Essa abordagem também influencia o desenho dos quartos, onde apenas algumas portas são visíveis a partir de uma perspectiva.12
           Ainda a respeito da acessibilidade, o projeto Rollstuhlgerechtes Niedrigenergiehaus28 é um exemplo muito positivo da valorização da rampa como elemento determinante na configuração do espaço. A rampa é, por excelência, o dispositivo arquitetónico que democratiza o acesso a todos os espaços do edifício, de modo sustentável (ao não necessitar de energia elétrica, como o elevador) e seguro para todos (ao possibilitar, aos indivíduos que não conseguem utilizar as escadas, a fuga do edifício, em caso de emergência, quando o acesso aos elevadores está interdito). Neste edifício, este dispositivo de deslocação vertical não é pensado como um mero complemento à escada, de importância secundária, concebido, no pior dos casos, exclusivamente por obrigação legislativa. Não aparece, tão pouco, apenas em situações pontuais, menos convenientes à deslocação de quem delas depende. O modo como este projeto emprega a rampa põe em causa a ideia de que a habitação com mais de um piso (como um apartamento duplex, ou uma moradia convencional de dois ou mais pisos) só é plenamente acessível no piso térreo, ou que o acesso aos demais pisos depende de aparelhos como elevadores convencionais ou elevadores de escadas29. A acessibilidade não é uma preocupação posterior, que se anexa à arquitetura; pelo contrário, o edifício é concebido, desde o início, de modo a que todos os seus espaços possam ser alcançados por qualquer um.
            Inês Guilherme apresenta, como uma das suas considerações finais acerca do tema da habitação intergeracional, que a habitação deve ser “uma solução que, além das exigências materiais, estruturais e construtivas, também é para ser habitada por todos”. Sobre este projeto, informa que “o objetivo [...] era construir uma casa acessível à cadeira de rodas da filha da família” e que, para este efeito, “o seu espaço organiza a rampa e o elevador como elemento central do desenho interior e exterior”. É de destacar, ainda, uma observação sua acerca do projeto:

[...] as grandes janelas de vidro, permitem que a linha de horizonte seja acessível à altura de vista de uma pessoa sentada.12
           A acessibilidade é entendida, neste projeto, não apenas como a permissão do acesso a todos os espaços do edifício, mas como de o experienciar na íntegra. A configuração do espaço abrange a problemática da acessibilidade de uma forma holística, que não se limita ao emprego de rampas ou elevadores. A altura das janelas é também considerada para que todos possam, além de estar, ver. Este exemplo constitui apenas o início daquilo que deve ser uma análise atenta à problemática da acessibilidade na arquitetura, que procure compreender, da forma mais exaustiva possível, as necessidades diferentes que caracterizam a(s) experiência(s) de uma vida condicionada.
            A constatação de que o mundo não está construído de uma forma acessível a todos não deverá conduzir o arquiteto a uma aceitação passiva desse facto, nem remetê-lo a perpetuar essa condição. As causas que determinam a configuração do espaço não devem ser naturalizadas - o mundo constrói-se porque alguém o projeta, da maneira que escolhe projetá-lo.

Fig. 1 


Fig. 2


Fig. 3


Fig. 4 
Figs. 1 e 2 - A presença da rampa no desenho do alçado
Figs. 3 e 4 -  As janelas até ao chão,  que permitem uma melhor visão para pessoas sentadas.

Ilustrações de Madalena Hörnig




A habitação intergeracional e os jovensECONOMIA, ADAPTABILIDADE, COMPANHIA E CELERIDADE
           Os estudos sobre a temática da habitação intergeracional têm vindo a incidir, sobretudo, na vertente da inclusão da população mais envelhecida na sociedade, pelo que os seus possíveis benefícios os mais jovens não têm tido a mesma atenção.
            Uma vez que, no caso dos jovens, os problemas explorados neste artigo acerca do acesso à habitação são tendencialmente de natureza económica, interessa o desenvolvimento de soluções arquitetónicas e de gestão da propriedade que reduzam o custo monetário associado ao acesso (por compra ou aluguer) a casa própria. 
            Inês Guilherme identificou, ao analisar os casos de estudo que selecionou sobre a habitação intergeracional, que “42% dos projetos são geridos pelos próprios moradores, através de cooperativas”12. Ao serem os próprios membros da cooperativa a estabelecer os preços de arrendamentos a praticar, este modo de gestão permite soluções de habitação mais acessíveis que contrapõem a oferta do mercado livre, o qual pratica, atualmente, preços incomportáveis para uma grande parte da população.  Podemos encontrar um exemplo desta prática no projeto Marmalade Lane24, já referido neste texto,  os moradores participam “ativamente no projeto, através da cooperativa”, e “decidem sobre a propriedade e os arrendamentos”12
            Outra maneira de fazer descer o preço da habitação é a redução da área que se está a comprar/alugar. A natureza flexível dos projetos que permitem que as unidades habitacionais se expandam e se contraiam, conforme o espaço necessário para cada agregado, garante que os residentes paguem apenas pela área e funcionalidades de que necessitam, acomodando eventuais mudanças ao longo das suas vidas30. O projeto Hellmutstrasse31 está configurado de maneira a que “através de discretas mudanças podem ser gerados apartamentos de 1, 2, 3, 4, 5 ou 6 quartos”12.
            Na situação de um jovem que procure uma solução de alojamento para poder estudar ou trabalhar longe da sua área de residência, a partilha das zonas de serviço pode reduzir ainda mais o custo monetário da unidade individual de habitação. Nos projetos de habitação intergeracional, é recorrente, sobretudo, a partilha do espaço de cozinhar, dada a valorização dos espaços de uso coletivo. Inês Guilherme conclui, inclusive, que “a cozinha é o equipamento valorizado para o encontro entre gerações nas obras inventariadas” (referindo-se a um total de 155 casos de estudo).
            O contributo que a partilha das zonas de serviço pode trazer ao bem-estar do jovem não se resume à redução do custo monetário da habitação. Ilda Massano-Cardoso, Sofia Figueiredo e Ana Galhardo escrevem, no artigo “Ansiedade, depressão e stress em estudantes universitários deslocados da sua residência”32:


A transição para a vida adulta caracteriza-se por uma fase de novas possibilidades, mas também de instabilidade e incerteza, na qual os jovens adultos dependem cada vez mais e por mais tempo dos seus pais, tanto do ponto de vista financeiro como funcional, afetivo e estrutural [...]  Pittman e Richmond (2008) [...] observaram que uma rede de apoio social sólida pode diminuir a vulnerabilidade emocional, enquanto estudantes que experienciam isolamento social apresentam maior predisposição para sintomas de ansiedade e depressão [...] Estudos revelam que a circunstância de os estudantes residirem em alojamentos estudantis ou em casas partilhadas, convivendo com estranhos em ambientes desconhecidos, pode ser particularmente indutora de stress (Stallman, 2010). Por outro lado, outros estudos, parecem revelar que este tipo de alojamento pode proporcionar maior satisfação com as condições de habitabilidade (e.g., Easterbrook & Vignoles, 2015; Simpeh & Shakantu, 2020). A interação com o grupo de pares no mesmo espaço comum pode mitigar comportamentos de isolamento e solidão. Por exemplo, Easterbrook & Vignoles (2015) observaram que estudantes residentes em alojamentos com áreas comuns partilhadas e sem casas de banho privativas relatavam encontros frequentes e involuntários com os colegas de casa. Esta dinâmica foi associada a melhorias nas relações interpessoais e a correlações positivas com o bem-estar.
           As conclusões contraditórias retiradas dos estudos mencionados pelas autoras do artigo não são suficientemente conclusivas a favor da habitação com zonas de uso coletivo como modo de prevenir a solidão e a ansiedade nos estudantes deslocados. A meu ver,  a disparidade dos resultados obtidos nestes estudos poderá decorrer de variáveis como o nível de  manutenção das áreas comuns, nomeadamente no que toca à limpeza das cozinhas e das casas de banho; do grau de privacidade e isolamento acústico conferido pelos quartos/espaços privados; do rigor na implementação das regras de funcionamento da residência por parte das entidades responsáveis; da adequação do número/dimensão dos equipamentos (como fogões ou frigoríficos) ao número de residentes a quem o seu uso se destina; entre outros fatores que possam determinar se a experiência da partilha dos espaços tende a ser mais proveitosa ou mais inconveniente.
            Um último caso de estudo a analisar neste capítulo que, apesar de não contemplar a intergeracionalidade, poderá constituir um exemplo a seguir no futuro da construção da habitação coletiva em Portugal, é a Residência de Estudantes em Sant Cugat del Vallès, em Barcelona33:

O projeto utiliza um novo sistema construtivo industrializado [...] que utiliza módulos monolíticos de betão armado. Essa abordagem permite um maior controle de desperdícios e qualidade da obra [...] além de reduzir o tempo de execução para cerca de 7 meses.12
           Dada a escassa oferta de habitação no nosso país, é urgente encontrar soluções construtivas que assegurem edifícios prontos a habitar no mais curto intervalo de tempo possível. Por essa razão, exemplos como este projeto, em que o recurso à pré-fabricação reduz drasticamente o tempo necessário para a construção do edifício, devem ser estudados e ter a sua aplicação considerada no nosso país com urgência.
            Apesar dos exemplos fornecidos nesta seção não terem sido especificamente analisados pela sua vertente intergeracional, a relevância desse tipo de habitação mantém-se pela sua capacidade de responder simultaneamente aos problemas enfrentados pelos jovens e pelos idosos, apresentados na introdução deste artigo.


Caso paradigmáticoMIXAGE, CRISSIER, SUÍÇA, 2010-2012

           Um dos projetos de habitação intergeracional em que são convocados mais plenamente os temas abordados neste artigo será, talvez, o mixAGE, na Suíça. Neste edifício, reúnem-se idosos com vários níveis de dependência e jovens estudantes com o objetivo de combater, em simultâneo, o isolamento social da população envelhecida e a falta de oferta de alojamento estudantil12. Um artigo publicado pela revista habitation34 acerca deste projeto refere:

O modo de vida intergeracional é um conceito que R. Dubuis decidiu explorar e pôr em prática. Enquanto diretor da EMS Résidence du Léman em Corseaux, conhece as necessidades contemporâneas e em evolução de apoiar e cuidar dos idosos que perderam autonomia [...] Ele estava também ciente da falta de habitação estudantil: então porque não imaginar uma solução em que os estudantes poderiam viver lado a lado com os mais velhos de uma maneira amigável? (trad. livre pelo autor deste artigo)

       Este projeto inclui, como outros já mencionados, unidades habitacionais adaptadas à mobilidade reduzida e espaços de uso coletivo, desenhados para “encorajar relações, desenvolver um ambiente de interação, promover a partilha de conhecimentos (por exemplo, cozinhar), e fomentar um espírito de solidariedade entre os residentes” 34. Para este efeito, foram implementadas medidas adicionais, à semelhança de outros projetos, como a programação de atividades culturais (palestras, workshops, projeção de filmes); de atividades de exercício físico como a ginástica; e de um jantar semanal que reúne “mais do que 15 pessoas”, das mais variadas idades, que habitam o edifício.
           A localização escolhida para o projeto tem também em conta as necessidades dos estudantes que ali vivem, pelo que se situa perto das universidades EPFL e UNIL, e tem acesso fácil a transportes públicos. Além disso, o valor que os estudantes devem pagar mensalmente pelo alojamento pode ser reduzido através de algumas horas de trabalho voluntário no apoio aos residentes idosos, que consiste em serviços como “lavar roupa, limpar janelas, aspirar, cuidar do correio, fazer pequenas compras, escrever cartas [...] com exceção de cuidados de saúde”. Os estudantes costumam dedicar, frequentemente, mais do que o mínimo estabelecido de 10 horas mensais de voluntariado requerido para este efeito. No entanto, existem profissionais no edifício que devem ser o primeiro contacto para esclarecimento de questões técnicas ou na procura de cuidados de saúde, para garantir que o apoio dos estudantes aos idosos não se torne excessivo.35



Conclusão
           Em suma, este artigo propõe que a habitação intergeracional pode, tendo um projeto e gestão adequadas, responder aos problemas enfrentados pelos idosos que vivem sozinhos, ao proporcionar-lhes espaços a que podem facilmente aceder; ao permitir-lhes preservar a autonomia e a privacidade que não encontrariam num lar; ao possibilitar o encontro e a partilha com outros, da sua e de outras gerações; ao incentivarem a manutenção da sua atividade física; e ao dinamizar programas que os enriquecem culturalmente, entre outras aqui não mencionadas;  e responder aos problemas no acesso à habitação própria experienciados pelos jovens, ao apresentar-se como uma alternativa mais acessível que a oferta do mercado livre; ao fornecer-lhes um espaço privado onde podem exercer a sua autonomia, mas que, através da implementação de espaços de uso comum a todos os residentes, das mais variadas idades, previnem algum isolamento social que podem experienciar com a saída de casa; ao permitir-lhes o contacto com os mais velhos, podendo daí surgir uma troca bidirecional de conhecimentos; e ao fornecer-lhes, dada a frequente adaptabilidade das unidades habitacionais nos edifícios de habitação intergeracional, a possibilidade de irem expandindo ou diminuindo a sua casa conforme for necessário ao longo das suas vidas, evitando mudanças custosas.
         Por estas e por outras razões, incentivamos a implementação deste tipo de alojamento em Portugal, dada a magnitude que os problemas mencionados têm, particularmente, no nosso país.






(20)Vale a pena considerar a incorporação de um serviço profissional de cozinha em edifícios de habitação coletiva, não só para os idosos ou jovens, mas também para outras faixas etárias. O modo de vida contemporâneo, no seu ritmo acelerado e nas dificuldades económicas sentidas por grande parte da população, pode favorecer alternativas alimentares de menor qualidade nutritiva, tanto apelativas pela praticidade (fast food; refeições para aquecer rapidamente em fornos de micro-ondas) como pela vertente económica (basta comparar os preços praticados pelos estabelecimentos de fast food aos de outros que servem refeições mais saudáveis). Assim, a implementação de um serviço de restauração, num edifício de habitação coletiva, que pratique preços acessíveis e sirva refeições saudáveis, pode ser um enorme contributo para o bem-estar dos seus habitantes. Este estabelecimento poderia, ainda, manter uma certa autonomia, estando integrado no volume do edifício de habitação coletiva mas servindo o público geral, como qualquer outro serviço de restauração, praticando preços mais acessíveis exclusivamente para os residentes do edifício.

(23) A criação de espaços de encontro, nos edifícios de habitação intergeracional, traduz-se frequentemente na redução da área total do espaço privado alocado a cada pessoa, de modo a que se possam alargar os espaços de utilização coletiva.

(29)Aparelhos como elevadores de escadas continuam a ser um recurso importante na habitação já construída.

(30) Consideremos, por exemplo, um jovem que sai de casa pela primeira vez, para estudar ou trabalhar noutra cidade ou país. Neste caso, pode dizer-se que provavelmente ficaria bem servido com um apartamento de apenas um quarto e de áreas relativamente reduzidas. Na eventualidade de começar a construir família, sentiria a necessidade de aumentar o espaço do apartamento, para acomodar um agregado em crescimento. Numa fase mais tardia da vida, aquando da saída dos seus filhos de sua casa, voltaria a precisar de menos espaço. Desta forma, projetos como o Hellmutstrasse acomodam mudanças nas necessidades espaciais dos seus residentes ao longo das suas vidas. Numa página do site Hidden Architecture dedicada a este projeto, pode ler-se: “No decurso dos 30 anos de existência do edifício, já houve algumas grandes adaptações. Nunca ninguém teve de mudar-se por a sua família ter aumentado ou diminuído. É óbvio que, estas adaptações requerem entendimentos entre os residentes”.
                         Comentários do autor deste artigo, posteriores à criação do mesmo.




Referências: 

[1]Consultado a 14/09/25, através de <Https://www.pordata.pt/pt/estatisticas/habitacao-e-familias/familias/adultos-viverem-sozinhos-por-sexo-e-grupo-etario
[2]Consultado a 18/09/25, através de <https://www.cruzvermelha.pt/not%C3%ADcias/item/8399-cruz-vermelha-junta-idosos-e-crian%C3%A7as-para-combater-o-isolamento-social-%20.html
[3]Consultado a 18/09/25, através de <https://rr.pt/2015/09/28/pais/idosos-de-portugal-sao-dos-mais-abandonados-na-europa/noticia/35332/>
[4]Consultado a 18/09/25, através de <https://blog.stannah.pt/vida-saudavel/solidao-nos-idosos/>
[5]Consultado a 18/09/25, através de <https://www.msdmanuals.com/pt/casa/quest%C3%B5es-sobre-a-sa%C3%BAde-de-pessoas-idosas/quest%C3%B5es-sociais-que-afetam-os-idosos/autoneglig%C3%AAncia-em-idosos?ruleredirectid=763>
[6]Consultado a 18/09/25, através de <https://www.idealista.pt/news/imobiliario/habitacao/2023/05/08/57752-por-que-e-que-os-jovens-nao-conseguem-comprar-casa
[7]Consultado a 11/10/25, através de <https://www.nit.pt/fit/saude/o-preco-das-casas-esta-a-destruir-a-saude-mental-dos-jovens-e-das-familias>
[8]Consultado a 11/10/25, através de <https://www.dn.pt/arquivo/diario-de-noticias/ensino-superior-menos-quartos-mais-caros-e-muitos-estao-ocupados-por-quem-ja-acabou-curso--15218662.html
[9]Consultado a 13/10/25, através de <https://www.e-konomista.pt/diminuicao-no-acesso-ao-ensino-superior/
[10]Consultado a 15/09/25, através de <https://supercasa.pt/noticias/jovens-veem-casa-propria-como-um-sonho-distante/n6848>
[11]Consultado a 11/10/25, através de <https://expresso.pt/geracao-e/2025-10-06-25-dos-universitarios-de-lisboa-ja-pensou-abandonar-estudos-por-causa-das-rendas-a8cb81ef
[12] GUILHERME, Inês, Habitação Intergeracional. Contributos para Boas Práticas, Dissertação de Mestrado Integrado em Arquitetura, FAUP, 2023
[13]Consultado a 18/10/25, através de <https://www.generationenwohnen-beso.ch/>   
[14]Consultado a 17/10/25, através de <https://retrospectjournal.com/2024/11/03/kommunalka-the-thin-wall-between-the-public-and-the-private-in-soviet-collective-housing/
[15] Termo que utilizarei para me referir aos Lares Residenciais e aos ERPIs, para uma leitura mais acessível.
[16]Consultado a 30/10/25, através de <https://www.youtube.com/watch?v=imCPkeG16OM>
[17]Consultado a 30/10/25, através de <https://helenhard.no/work/vindmollebakken/>
[18]Consultado a 25/10/25, através de  <http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0009-67252010000400009>
[19]Consultado a 25/10/25, através de <https://www.karthago.ch/
[20] Comentário posterior do autor do artigo. 
[21] Consultado a 18/10/25, através de <https://www.papillon-pflegt.ch/>
[22]Consultado a 18/10/25, através de <https://www.judsonsmartliving.org/>
[23]  Comentário posterior do autor do artigo. 
[24]Consultado a 31/10/25, através de <https://www.marmaladelane.co.uk/
[25]Consultado a 1/11/25, através de <https://lisboacomvida.scml.pt/noticias/portfolio-items/centro-social-e-polivalente-do-bairro-padre-cruz/>  
[26]Consultado a 1/11/25, através de <https://scml.pt/media/tag/residencia-assistida-bairro-padre-cruz/>
[27]Consultado a 2/11/25, através de <https://www.architectsjournal.co.uk/buildings/sergison-bates-completes-sheltered-housing-for-young-dementia-sufferers-in-belgium?blocktitle=recently-featured-built-projects
[28]Consultado a 31/10/25, através de <https://www.architonic.com/de/pr/rollstuhlgerechtes-niedrigenergiehaus/5100552/
[29]  Comentário posterior do autor do artigo. 
[30] Comentário posterior do autor do artigo. 
[31]Consultado a 2/11/25, através de <https://hiddenarchitecture.net/siedlung-hellmutstrasse/
[32]MASSANO-CARDOSO, I.; FIGUEIREDO, S. e GALHARDO, A., Ansiedade, depressão e stress em estudantes universitários deslocados da sua residência, Revista Portuguesa de Investigação Comportamental e Social, 2024.
[33]Consultado a 4/11/25, através de <https://www.dataae.com/project/2427/>
[34]Consultado a 4/11/25, através de <https://www.habitation.ch/wp-content/uploads/2017/03/sommaire2-2017-1.pdf
[35]Consultado a 30/11/25, através de <https://ethz.ch/content/dam/ethz/special-interest/arch/ncl/eth-case-dam/documents/Publikationen/forschungsberichte/2021/9_2021202_einzelportraits_mixAge.pdf


  

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