O Triunfo das Galinhas: as migalhas da arquitetura



 
“A Escola pertence às Galinhas.”
  
           
[1 - Os Fatalistas]

          Cerimónias à parte, podemos afirmar que estamos cheios de dúvidas.
          Encontramo-nos perante um futuro incerto, em constante mutação, que nos leva a questionar tudo o que somos, fazemos e pensamos.
           Vivemos isolados numa sociedade individualista apesar de sermos seres intrinsecamente sociais. Precisamos de abrigos para sobreviver, no entanto, a crise na habitação prolonga-se sem fim à vista. Mas construir implica poluir; portanto, torna-se difícil de justificar o facto de aprendermos apenas a construir novo quando à nossa volta há tantos edifícios abandonados e inutilizados.
Surgem as Questões:
                   
            - Qual é o futuro da arquitetura no meio deste mundo imprevisível?
                        - Qual será o papel do arquiteto?


           
           Estas são as grandes Questões que não podemos evitar, mas devemos enfrentar. Apesar de ainda não termos resposta a estas perguntas, somos jovens, como tal, o tom fatalista não nos assenta bem. Somos otimistas, sonhadores, utópicos e (talvez, ocasionalmente)  ingénuos. Temos de assumir este papel que se mostra tão valioso ao desenvolvimento da nossa sociedade. 
           O nosso espírito crítico é uma ferramenta fundamental que não podemos deixar que nos retirem. Assim, esperamos conseguir responder, mesmo que parcialmente, a estas questões cruciais ao fomentar o questionamento do que nos rodeia. 




[2- Os Mandamentos]

           Enquanto Escola, vivemos isolados do contexto em que nos inserimos. 
           Falta criar diálogo com outras faculdades, com comunidades locais, com ateliers de arquitetura, com autarquias, etc. Temos de deixar de viver agarrados aos estiradores, a tentar cumprir com pedidos de “cortes perspectivados, axonométricos, explodidos, desconstruídos, constructivos, sombreados, com flip mortal rotativo… e mobilados, cumprindo a cota de 50 sanitas por folha de entrega à escala 1:1000 (que devem ser feitas à mão)”. 
Somos educados para

1

           Fala-se da tradição, mas ainda não conseguimos realmente tocar na famosa realidade da Escola prática e intimamente relacionada com o lugar e com o contexto. Quiçá, a Escola não seja feita de conceitos abstratos que nos são martelados, mas surja das pessoas que por aqui passaram e continuaram a passar, que precisamente saíram da norma. Desde os óbvios arquitetos “Pritzkers” Álvaro Siza e Souto de Moura (porque não poderíamos escrever um texto sobre a Escola do Porto sem mencionar o Siza pelo menos uma vez), até aos alunos inconformados que percorrem estes corredores dia e noite. A inovação no pensamento arquitectónico não se produz apenas a partir do estirador, mas ao conhecer a cidade e quem a habita. Não é por acaso que o SAAL é outro tema que não poderia ser omitido num texto sobre a Escola do Porto.
           Por outro lado, sentimo-nos desligados dos tempos que correm. “Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades.”2 Não nos podemos esquecer de estudar a atualidade para sermos capazes de gerar mudanças no presente e no futuro. A realidade que a nossa geração está a herdar é a de uma sociedade globalizada e instável, que atravessa várias formas de crise. A arquitetura deve dar uma resposta específica a estas mudanças. Na habitação, por exemplo, o núcleo familiar “tradicional” está-se a dissolver, sendo substituído por novas lógicas sociais sobre as quais temos de saber agir e responder. Aumentou exponencialmente a necessidade de residências estudantis, geriátricas, intergeracionais, de acolhimento a pessoas em situações vulneráveis, e muito mais; perguntamo-nos sobre os modelos que melhor poderão responder  a estas necessidades. Fará sentido  estarmos numa faculdade de arquitetura que não discute temas emergentes?



[3- “One from the Heart”3]

                      Qualquer pessoa desesperaria perante a imensurável tarefa de desconstruir estes tópicos (mesmo nós, estudantes de arquitetura, que por vezes até conseguimos fazer com que uma axonometria explodida fique bem). O aluno comum de arquitetura desinteressa-se, para evitar tornar-se um eterno filósofo, e sucumbe ao “estiradorismo”.4
           Todos nós tivemos contacto, certamente em mais do que uma ocasião, com as seguintes palavras de Vitrúvio: Ele [o arquiteto] deve então saber escrever e projectar, estar instruído na Geometria, não ignorar a Óptica, ter aprendido Aritmética, e saber muito de História, ter bem estudado a Filosofia, ter conhecimento de Música, e algumas luzes de Medicina, de Jurisprudência e de Astrologia.5  
           Ou, como já dizia Alexandre Alves Costa, Propomos pois, afinal, a cada um, a cada aluno desta escola, que crie de si, impacientemente ou pacientemente, o mais insubstituível dos seres.6
           Apesar de estar aqui ser um enorme privilégio, um “estar” passivo não é suficiente. Se A Escola é dos alunos.7, a melhor forma de valorizar a nossa (não tão) breve passagem por aqui é viver todos os dias como se fossem uma quinta-feira de churrasco. Falar sobre o que se passa cá dentro e fora daqui; ousar, experimentar,8 imaginar; dançar com a arquitetura! Educarmo-nos noutros temas, mais próximos ou mais distantes; desenvolver projetos noutras áreas; viajar; ir ao cinema, a uma exposição; mas também saber parar e passar o dia de pijama - porque a arquitetura vive-se no quotidiano e não num momento de inspirada exceção. Não podemos deixar que uma instituição assuma os “direitos de autor” da nossa mente e identidade. É preciso entender - e isto pode ser difícil para os mais interessados no assunto - que o desenvolvimento da nossa vida fora da faculdade não significa um descompromisso com a arquitetura; até porque, pelo contrário, essas vivências são contributos indispensáveis à construção da nossa própria identidade. O espaço experiencia-se, mais do que estudando-o, vivendo-o - e ele é inescapável. 
           Não podemos, e não queremos, sair daqui desanimados. Não porque temos de viver na paz e no amor, mas porque a arquitetura é essencial ao funcionamento do mundo. 
           O tempo da nossa arquitetura é o de agora; não o desperdicemos.


                                                                                                                                                                                      Revista MA





Referências: 

[1]  “A Inconformada - ‘De volta à vaca fria’”, O Inconformado, n.º6, Fevereiro de 2023.
[2] Citação do soneto “Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades”, de Luís Vaz de Camões (séc. XVI), e da canção homónima de José Mário Branco (1971).
[3]  Filme de Francis Ford Coppola (1982).
[4] Termo da autoria da Revista MA (2025). 
[5]  Citação do Cap. I do Livro I, Dez Livros de Arquitetura, Vitrúvio (séc. I a.C.)
[6] Citação de Alexandre Alves Costa, na Unidade IV (1995).  
[7] Citação universal e intemporal.
[8] Texto presente na Unidade II (1989).























































































































estiradorismo
(es.ti.ra.dor.ismo)

nome
  1. Ato de se viver agarrado a um estirador e não fazer mais nada na vida. 
  2. Causa comum de dor nas costas, de desânimo e de indiferença.
  3. Falta de contacto com o mundo exterior. 
  4. Relutância à utilização de espírito crítico. 

Sinónimos: trauma
Antónimos: Carpe Diem

Exemplo: “- Ela tem andado meio desanimada                           está pálida e curva, sabes o que se passa?
                      - Pois, aparentemente está com                                  sintomas de estiradorismo…” 

 



Relacionados:

 
PAINEL 40 anos desde a Unidade - Pequenas Resistências faupianas
PAINEL Socorro! Comecei o Curso... 
ARTIGO Habitação Intergeracional: a Primeira e a Última Casa
PAINEL O Habitante do Século XXI
PAINEL À vista