Nunca haverá Romance nesta Escola?
À conversa com Jorge Figueira
05 NOVEMBRO 2025
À conversa com Jorge Figueira
05 NOVEMBRO 2025
REVISTA MA:
Como é que surgiu a Unidade?
Em que contexto, e quais eram os seus objetivos?
JORGE FIGUEIRA: A Unidade foi lançada há muito tempo, mas é algo muito presente em mim. A certa altura, há uma coisa que o professor de Projeto diz, de forma mais ou menos distraída, e que fica gravado como se fosse uma crítica terrível, ou uma coisa maravilhosa. O tempo de passagem pela Faculdade é um tempo rápido, mas as coisas ficam para sempre; a revista é um desses momentos para mim. Na altura da Faculdade, fiz o interrail três vezes, com outros colegas, como o Nuno Grande, e começámos a ter a ideia de fazer uma Associação de Estudantes e uma revista, que seria um “ativismo” em relação à A.E. Talvez seja uma memória um pouco fabricada, mas lembro-me de estarmos em Berlim, ainda antes de o muro ter caído, e de haver esse desejo de intervir e de relacionarmos coisas. No primeiro número da Unidade, penso que se fala de Wim Wenders, do “Asas do Desejo”, e do Bonjour Tristesse. Éramos jovens mais ou menos rebeldes que seguiam a cultura da época, que ouviam o Nick Cave, motivados pelas culturas estrangeiras, pelo cinema e pela música. Na revista, tentámos fazer uma espécie de cruzamento entre os nossos interesses pessoais e a Escola, que era necessariamente mais lenta, por vezes árdua e difícil, distante do nosso quotidiano. Queríamos colocar os nossos interesses em diálogo com o estirador, com o desenho, com as viagens ao Alentejo e às obras do Siza, mundos apartados e diferentes! A Unidade era um espaço onde se afirmava que as nossas referências eram diferentes das dos professores e que tínhamos algumas coisas a dizer - os estudantes têm sempre algo a dizer.
REVISTA MA: Nos tempos da Unidade, vocês escreveram “Não há romance nesta escola.”
Pode explicar o que é que quiseram dizer com isso?
JF: Estas coisas são sempre feitas por um grupo pequeno e acho que há colegas no curso, de quem sou amigo, que não fazem a mínima ideia de que fui eu que pintei aquela frase com duas ou três pessoas no muro da Casa Cor-de-Rosa. A ideia de fazer um graffiti veio-nos talvez no regresso de Berlim; a frase até tinha o S ao contrário, como no edifício do Bonjour Tristesse, e suponho que era uma espécie de anúncio da nossa Associação de Estudantes e da revista, uma expressão que refletia a nossa vontade de intervir. A história do grafitti parece irreal, mas é verídica. Eram talvez onze da noite, estávamos a meio de pintar a frase no muro da Casa, com as luzes do carro ligadas, para conseguirmos ver o que estávamos a fazer, quando o alarme da FAUP disparou. Pegamos nas coisas, começámos a fugir e fomos para a porta da minha casa, os quatro, sem saber o que fazer, porque a frase tinha ficado a meio. De repente, vimos dois carros a passar, com o Alexandre Alves Costa, o Sergio Fernandez e alguns alunos, que vinham de uma reunião do Conselho Diretivo da faculdade. Mandámos parar os carros e contámos à direção da Faculdade o que tinha acontecido, e eles sugeriram que fôssemos todos para lá. Ao chegarmos à Faculdade, o Conselho Diretivo disse-nos que era possível continuarmos com a nossa jornada; por isso, acabámos de escrever a frase descansadamente, já com a autorização, não prevista, da direção da escola.
Quando se fala em Romance, estamos a falar da relação que nós, estudantes, temos com os outros, mas também da relação que temos com o mundo e com a Escola, que era já uma estrutura muito forte na história da cultura e da arquitetura portuguesa. Este tipo de ação é algo que só se realiza quando se tem 19, 20, 21, 22 anos, um desafio à Escola e a nós próprios. No entanto, a nossa abordagem foi sempre semelhante à da música: de ter admiração pelos músicos que nos precederam, porque os nossos antecessores abriram o caminho para nós também a produzirmos. Estávamos mais interessados em perceber quem nos precedeu, como o Fernando Távora, do que em criar um conflito, ou talvez se tratasse de criar um conflito amigável. Mesmo havendo algo que nos desagradasse, tentámos responder com elegância e era isso o graffiti, uma espécie de interrogação. Na altura, perguntaram-me se era uma frase do Brecht.
REVISTA MA: A Escola do Porto é um tema mencionado na Unidade, sendo também recorrente no seu trabalho e nas suas pesquisas. Há quem diga que é o Siza, há quem diga que é o desenho, há quem diga que é a ligação com o contexto. O que é a Escola do Porto?
JF: Essa pergunta obrigar-me-ia a fazer um seminário completo. Atualmente, vive-se numa época em que, usando uma expressão que se utiliza banalmente, tudo é transformado em narrativas. Portanto, apetece-nos ou não que exista uma Escola do Porto?
Quando já estava em Coimbra, fiz um trabalho sobre a Escola do Porto, procurando determinar, argumentar, entrevistar e perceber esta questão, porque me parecia que havia provas suficientes de que existia uma escola do Porto. Nos anos 50, 60 e 70, há um pequeno grupo de professores, na maioria homens, e algumas mulheres, que partilhavam uma sensibilidade em termos políticos, culturais, musicais e, acima de tudo, arquitetónicos, relacionados com a ideia do desenho, vinda de Belas Artes, e a questão de desenhar como sendo uma escrita. Partilhavam também ideias políticas, de resistência ao regime e da construção de uma sociedade progressista; na arquitetura, a paixão pela arquitetura moderna, pela arquitetura brasileira, pelos grandes mestres como o Le Corbusier, o Frank Lloyd Wright ou o Mies van der Rohe. Por exemplo, era como se nós, que estamos aqui agora, fôssemos à casa uns dos outros, víssemos a mesma arquitetura e fizéssemos viagens em conjunto. Em 1976, este grupo faz uma viagem à Grécia, de que há fotografias belíssimas, e encontram-se na “origem do mundo”, em Delfos. Existe uma Escola no sentido de uma cumplicidade partilhada, por vezes terrível; alguns deles foram presos antes do 25 de Abril e todos estavam ligados à política. Principalmente, há uma estética partilhada na arquitetura que fez com que a Escola do Porto se tornasse única e contextual.
Assim, quando fiz este trabalho, em 1995 ou 1996, decidi que a Escola do Porto existia. Claro que a pior coisa que se pode dizer a um artista é que ele é cubista, expressionista ou futurista, porque eles sabem que quando essa “moda” passar e o conceito perder validade, vão ficar no vazio. Os artistas não gostam de ser rotulados ou aprisionados num conceito, tal como os arquitetos; é por isso que o Siza nunca disse “eu sou um regionalista crítico”, ou “eu sou um modernista” ou “eu sou um pós-modernista”. Existe uma espécie de fé de que tudo isto é uma coisa intuitiva e que a escola de Porto tem estas determinadas características. A partir desse momento, o declínio é quase obrigatório; daí a resistência ao rótulo que existia na altura. Mas quando toda a gente passa a falar em determinado conceito, como a Escola do Porto, e isso se transforma numa espécie de lugar comum, convém estarmos atentos, para que não haja nenhum conceito resistente que nós, académicos, ou estudantes de arquitetura ou críticos não saibamos definir, pensar, ou eventualmente, matar. Eu gosto das coisas óbvias. Há claramente arquitetos, investigadores e teóricos, que gostam muito de coisas estranhas e incomuns, até melodramáticas, como por exemplo: “como é que se trabalha a escassez”; eu gosto de coisas tão evidentes, que ninguém sabe ao certo o que significam.
REVISTA MA: O arquiteto esteve na FAUP há quase 40 anos e disse que “procuravam a vitalidade da escola, propondo ao mesmo tempo a vossa própria diferença”. Acha que essa diferença se concretizou de alguma forma?
JF: Através da nossa diferença, conseguimos aquilo que pode ser o objetivo de um estudante de arquitetura ou de um arquiteto, que é compreender o sítio onde estamos. Com a nossa diferença. Vocês têm que ter interesse no “Porto”, não necessariamente apenas no Mies, no Frank Lloyd Wright ou no Siza, ou só na arquitetura; podem ser referências da música, da arte, do cinema, da cultura, do ativismo. Ter motivações, interesses e obsessões é fundamental, porque são estas que introduzem a nossa diferença face a este edifício que nos rodeia [a FAUP].
Quando eu fiz a exposição na Casa da Arquitetura, com a Ana Neiva, a propósito dos 50 anos da Arquitetura Portuguesa em Democracia, as pessoas mais próximas de mim e que conhecem o meu trabalho, perceberam que era uma abordagem que tem a ver com a Unidade, com a minha passagem na Escola; estava lá o António Variações e as coisas do quotidiano, que aparentemente podem não ter uma ligação com a arquitetura, mas se nós quisermos, têm. Isso significa também que as nossas saídas, como estudantes de arquitetura, podem ser muito diversas. Por exemplo, a Ana Aragão é uma arquiteta formada aqui, que tem um trabalho exposto neste momento no Museu Soares dos Reis com ligações à cultura japonesa. Foi uma estudante de arquitetura do Porto, com toda a aprendizagem desta Escola, e o seu trabalho artístico é muito arquitetónico, embora sem ligações aparentes com essa aprendizagem.
REVISTA MA: Os cursos de arquitetura continuam a ter uma tradição muito projetual.
No entanto, optou pela investigação e pelo ensino. Como é que a investigação e o
projeto contribuem um para o outro?
JF: Já fui professor de projeto há algum tempo; sei bem o que é ensinar projeto e o que custa, tanto aos professores, como aos estudantes. No entanto, penso que é um dos espaços mais bonitos da universidade; quando os alunos estão a trabalhar e o professor se senta ao lado deles.
Para voltarmos ao início, no final dos anos 80 e início dos anos 90, um dos desafios era fazer com que a Teoria e a História se aproximassem mais do curso de arquitetura. A Escola vinha das Belas Artes – do estirador, do desenho, do esquisso – a Teoria e a História surgiam então como um fenómeno relativamente lateral, obrigatórias porque estávamos inseridos na Universidade. É só a partir daí que foram pensadas como sendo essenciais para a formação do arquiteto. O que cria animosidades com o projeto. A relação entre professores, como a relação entre estudantes, é feita de afetividade, proximidade e competição, porque a Universidade é isso, às vezes de uma maneira impiedosa.
Em Coimbra, o começo da escola foi muito marcado pela importância da História, da reflexão e da crítica. A disciplina de projeto sempre foi central, mas percebeu-se que era importante trazer coisas de fora para dentro da arquitetura, ou da arquitetura para fora; isso só é possível com uma presença forte da História e da Teoria.
A questão da inteligência artificial vai afetar muito as disciplinas teóricas, mais rapidamente que as disciplinas de projeto. Mas o arquiteto não é um lápis maravilhoso, como dizia Távora. Aliás, surpreendi-me muito no primeiro ano da Faculdade quando aprendi que “desenhar bem” podia não significar muito - desenhar para a arquitetura é diferente. Continuo a pensar assim, acho que a intuição é muito importante, mas é fundamental ter também uma capacidade crítica e de relacionar coisas, para que se possa ir buscar, inesperadamente, o Mies van der Rohe, como fez o Eduardo Souto de Moura. Hoje, mais do que nunca, a informação existe e está disponível, mas precisamos do entusiasmo de tentar perceber aquilo que pode ser nosso; penso que é isso que os professores ensinam, até sem querer.
REVISTA MA: Porque é que os alunos não têm um papel muito ativo na faculdade atualmente?
JF: Tenho dificuldade em confirmar isso. No meu tempo era exatamente assim, a FAUP é uma escola grande, e há uma quantidade limitada de estudantes que se interessam por atividades extracurriculares, por pensar a escola, ou criticá-la. É irrealista pensar que toda a escola se vai unir para fazer uma revista. Os estudantes movem-se de modos diferentes, têm relações diferentes com o que estão a viver, e isso não tem mal. O que é evidente aqui na Faculdade é que os estudantes são muito bons e que esta é uma escola com tradição e história, algo incomparável no contexto português, e em outros contextos. O que eu também acho difícil é que não haja uma permanente insatisfação; o problema aqui é passar da insatisfação para o ressentimento. A Escola coloca a experiência arquitetónica num patamar muito elevado; pelo menos, a sua história é essa. E isso cria problemas, ressentimentos. Parece-me que o ressentimento é o principal inimigo para as nossas vidas: prende-nos a energia, entristece-nos. Se nós não tivéssemos feito a revista e pintado a parede, talvez experimentássemos esse ressentimento. O tempo de Faculdade pode ser intenso, mas é apenas uma passagem, uma experiência, que pode ser muito interessante se a soubermos aproveitar.
Podemos imaginar uma Faculdade de arquitetura ideal onde tudo é maravilhoso, onde não há motivos para o ressentimento ou a insatisfação; mas nesse caso também não haveria o Álvaro Siza, nem o Fernando Távora, nem o Alexandre Alves Costa, nem o Eduardo Souto de Moura; não havia o Sergio Fernandez, nem os muitos amigos que tenho aqui. Seria uma escola maravilhosa, mas muito triste, muito pobre. Não existe. A escola que existe é esta.
Há uma expressão da internet e do mundo político que gostaria de introduzir: os gatekeepers. São personalidades, guardiões, que dizem: “As coisas são o que são e eu estou aqui e mantenho-me no poder para aguentar esta posição”. Nos últimos 10 anos, a partir das redes sociais e a partir daquilo que está a acontecer na política, surgiram um conjunto de pessoas que querem destruir os gatekeepers sob o argumento de que estes ocupam as mesmas posições há demasiado tempo e já perderam a noção do que estão a fazer. Mas esse conceito resulta em algo tão disruptivo e destrutivo que começou uma onda que diz o contrário: é bom haver gente nas instituições que defende que não se pode deitar abaixo parte da Casa Branca. Como vocês sabem, a east wing foi demolida pelo Presidente da América, exatamente porque ele é um anti-gatekeeper. É interessante pensar que o movimento dos últimos anos de destruição dos gatekeepersé hoje pensado como um erro; porque, a certa altura, os guardiões cumprem uma função: garantir que as paredes continuam de pé.
REVISTA MA: Como é que a FAUP deveria ser daqui a 40 anos?
Qual é o rumo desta escola? Será que nos devemos focar em continuar a procura por uma liberdade própria, ou devemos nos “focar no exterior”, como se faz no Departamento de Arquitectura de Coimbra ?
JF: Coimbra é uma Universidade muito antiga e eu tenho dito que uma das maneiras de avançar para a frente seria ser muito mais arcaico, criar uma “narrativa”, ser-se ainda mais académico, à maneira de Oxford ou Cambridge. Quarenta anos é muito tempo. É defensável a ideia de uma certa inércia; as escolas de arquitetura em Portugal derivam um pouco desta ideia de que há coisas que sempre se fizeram assim, portanto sempre se farão assim. Nos anos 50 imaginava-se que nos anos 2000 haveria carros voadores, mas não há, há ubers, coisa que ninguém imaginou. Isto para dizer que uma das formas de responder à vossa pergunta é dizer que há muitas coisas que serão muito próximas do que são hoje; o ato da escrita, do desenho, de pensar o espaço, da construção, pode ter variações, mas tem uma certa imutabilidade. Há coisas que é bom que sejam imutáveis. Há tantas variações e incógnitas no futuro que é bom regressar a este espaço, ou nunca o abandonar. No limite, este conservadorismo “antropológico” pode ser paralisante, não tenho dúvidas. Mas o contrário – pensar que tudo se vai desregular e romper – não é praticável, nem defensável, como demonstram as vanguardas e as guerras do século XX.
O que eu penso que vai acontecer, o que já está a acontecer, é uma renovada relação com o mundo, do ponto vista da informação, do acesso à história, às ideias, às experiências de todas as geografias, que vai ser cada vez mais pronunciada, intensa. A relação que os estudantes têm com a informação é muito diferente do tempo da Unidade, onde se disputavam as poucas revistas que existiam. Os estudantes serão cada vez melhores, mais apetrechados, se estiverem para isso. Mas pode haver maior ressentimento, se não se tiver cuidado com a frustração e a insatisfação.
E a História, mesmo com a Inteligência Artificial, será cada vez mais fundamental: é uma forma de organizar o conhecimento. É natural e até saudável que o estudante pense que está a inventar, pela primeira vez, o projeto que está a desenhar. Nesse caso, a História entra com uma deceção ou uma alegria? Talvez os dois, ao mesmo tempo. Mas a literacia que este novo mundo cria, enredando todos os outros novos e velhos mundos consigo, permite pensar que os estudantes deste futuro serão formidáveis. Pormenorizado ou virtual, o conhecimento que podem construir a partir da informação é verdadeiramente novo, com novas texturas e complexidade; mas precisa da História para se organizar.
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